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Prefácio de
Léo Gilson Ribeiro
 

Carlos Nejar, o Poeta
 

Nejar em árabe quer dizer carpinteiro e Carlos tem sido o carpinteiro
de magníficos poemas ao longo de trinta e cinco anos - uma vida adulta
inteira de fidelidade à poesia.

Desde as mais longínquas citações de seus primeiros versos, vibra uma
tensão - a revolta diante da situação social de abandono dos pobres no campo,
sem terras, sem paga justa, sem futuro. Mas a inteligência disciplina essa ira e
Nejar nunca se afasta dessas figuras de aspecto humano e que agora constituem
os 30 ou 40 milhões de  brasileiros que vivem na mais humilhante e imóvel miséria.
Um dos versos iniciais assinala, precoce:

   " Os homens eram de treva,
      fizeram-se escravos dela.

      Os homens eram remotos
      no grande túnel de pedra.

    (...)

      Floração ali não medra.
      Tudo o que nasce é de pedra.
      O tempo nasceu do homem,
      mas o homem não é pedra

    (...)

      Os homens donde vieram
      com seu destino de pedra ? " (...)

Lúcido sempre, Nejar jamais quis dar ao seu canto um tom fácil de planfleto político. Mas sabe que a poesia tira toda a sua seiva desse terreno áspero, que é a liberdade e um ideal político totalitário não rima com a livre  inspiração poética. Como ele poderia ter feito um nome nas rodinhas literárias ridículas que levam os criadores a congressos de literatura em Houston, Texas, ou em Frankfurt ou Berlim - e não quis. Mas se o poeta gaúcho não estava preso a nenhum manual de conversão política, tampouco poderia limitar-se apenas ao descampado, ao meio rural do Rio Grande do Sul.
Como ele próprio reconhece e proclama:

   "Embora preso ao pampa,
     eu sempre fui sem pátria
     ou acostumei-me à ingrata
     volúpia de ir seguindo" (...)

Semelhante aos poetas do romantismo inglês, e sobretudo, Wordsworth,
que revelara, absorto: "O céu se estende sobre nós /  na nossa infância ",
Nejar  tem da pátria uma noção que se une ao tempo que as rugas e os
ponteiros dos relógios assinalam:

     "Quem apartar a infância,
       pode ser dela, ao menos,
       absorto na fragância
                       de seus campos amenos ?"  (...)

A pátria abrange muito mais: a pátria é o ser humano, nosso próximo,
são todos os países e todos os povos, como no canto fraternal do poeta
norte-americano Walt Whitman. Nejar evoca a irmandade de todos os homens
sobre este frágil planeta devastado por guerras, poluição e violência:

       "O homem sempre é mais forte,
         se a outro homem se aliar ;   (...)

         Por mais que a morte desfaça,
         há um homem sempre a lutar.
         O vento faz  seu caminho
         por dentro, no seu poemar ".

E na própria paisagem inaugural campestre, ele tem as primeiras e
inesquecíveis fulgurações místicas, como o menino Miguilim do conto
Campo Geral, de Guimarães Rosa, quando deixa a miopia e vê tudo
num deslumbramento, com os óculos novos que lhe deram:

        '"Um dia vi Deus numa palavra
           e luminosa despontava, argila.
                      E Deus vagueava tudo, aquietava
           as numinosas letras, quase em fila " (...)

Adão, feito da argila modelada por Deus, nomeava as flores, árvores,
rios, animais do Paraíso e o Nome é uma palavra, banhada de transcendência.
A palavra se comunica de um ser a outro, mas também indica uma interrupção,
corte, separação, morte, ou um mistério de que apenas é o símbolo, a guardiã,
o caminho do Absoluto: Deus.

Do viver árduo, áspero é que se extrai aquilo que fica depois que
a morte passou como um arado sobre os nossos ossos e a nossa memória:
a Esperança. Esperança de vida para os que se contentam com a existência
carnal efêmera sobre a Terra. Esperança, além do acaso, da destruição, da
frustração para os que, como o poeta, a arrancam do Mal universal e, mesmo
aleijados, a esculpem a mando de seu coração:

   "Limarás tua esperança.
      Até que a mó se desgaste;
                 mesmo sem mó, limarás
      contra a sorte e o desespero.

       Até que tudo te seja
       mais doloroso e profundo.
       Limarás sem mãos ou braços,
                   com o coração resoluto.

       Conhecerás a esperança,
                   após a morte de tudo".

Em um de seus versos mais formosos, o poeta admite, com clareza,
como se contemplasse um céu coalhado de estrelas:

"Amar é a mais alta constelação".

Através de todas as etapas de sua poesia-social, mística, épica, lírica - o
seu canto é, inconfundivelmente, um canto viril, que não teme os grilhões dos
poderosos que pretendem deformar a verdade ou estrangulá-la. Assim, no altivo, destemido, desafiador poema em que Giordano Bruno se levanta contra a
hedionda Inquisição, diz :

      " Não é a mim
         que condenais.   (...)

         Nada podeis
         roubar-me.
           A verdade sofreu
                     e eu sofri
           no grão dos ossos. (...)

         Não cedo
         o que aprendi
         com os elementos .  (...)

         Eu me fiei
         ao universo
         e sou janela
         de harmonia indelével.

         Não vos julgo.

         O que se move
          é a história
                     no caule da fogueira

           Sou de uma raça
             que procede
           do  fogo.

           Não podereis calar-me ".

Dos tempos imemoriais, o homem pressente e só o poeta sabe,
claramente, que até para os ateus e agnósticos, existem conceitos humanos
que não passam pela morte: a Verdade, a Justiça, o Amor, a Liberdade, a
Ética, a Generosidade, a Compaixão, a Paz. Essa a razão para não temer aquela
que o grande poeta pernambucano Manuel Bandeira chamava de "A indesejada
das gentes ", a Morte. Ele vê esse momento final do corpo, senão da alma
também, como o retorno cíclico de outro eu:

"Depois minha morte vai amadurecer de novo , mas será da mesma  natureza. E aprenderei a falar com o mundo. E o mundo vai amadurecer como uma pêra e depois vai vir uma semente com o mesmo nome. Porém, já serei eterno ".

Como para a Antiguidade Clássica, a Grécia calcada sob os pés do
tosco Império de Roma, as estações que se sucedem, antecipam ao ser
humano, a sua perenidade. Como exclamaria o genial poeta inglês John Donne:

"Morte, onde está tua vitória? "

    O mais recente livro de Nejar - um longo e culto canto contra a tirania
dos controladores da mídia nesse nosso indigente Brasil - diz:

"E eu ressuscitarei na palavra".

Basta um relance sobre a triste história da humanidade para nos
convencer de que os poetas (mesmo os que escrevem em prosa, como
Dostoievsky), sempre ergueram suas consciências e sua altivez contra os tiranos:
Ossip Mandelstamm no "Gulag " (campo de concentração) soviético de Stálin,
García Lorca caindo fuzilado  pelos fascistas espanhóis, Graciliano Ramos preso
nas cadeias do "Estado Novo" de Getúlio Vargas - os exemplos poderiam se multiplicar por milênios.Mas os supremos artistas e místicos como Gandhi, Martin Luther King, Chagall, Proust  sabem que a liberdade é uma metáfora da Verdade,
assim como o poeta inglês Keats repetia, semelhante a uma criança que tivesse capturado uma estrela e ela brilhasse agora em suas mãos:

"A thing of beaty is a joy forever. Truth is Beauty  and Beauty is Truth ":
"Tudo  que é belo é uma alegria para sempre. A Verdade é a Beleza e a
Beleza é a Verdade".

Tendo profissionalmente desempenhado funções em tribunais,
Nejar discerne com rapidez e equilíbrio de que lado está a causa justa:
o contato com a fragilidade da justiça dos tribunais humanos chocou-o pelo que ela
tem de venalidade, de aproximativo, de errôneo, tantas vezes. Mas essa lacuna,
todos os seus livros - dos mais importantes da literatura escrita em português
neste século - reconforta-nos sempre a mesma voz em estruturas diversas: na
esfera  do amor, no quadrado das relações "des"umanas, no vitral da busca de
Deus, no solo que compartilhamos com todos, na campa estreita da Morte que
nos colherá quando bem lhe aprouver, sem apelação. Essa fila de atentas sentinelas traz, em cada volume, aportes novos à  visão plural de Carlos Nejar.

Seria auspicioso que a reedição desta coletânea de seus versos, despertasse
no leitor, o desejo de complementar sua leitura nos demais livros, cada um regorgitando mais de tesouros de conceitos e dizeres, como se a Ética e a Estética
se dessem as mãos momentaneamente. O Livro de Silbion, 1963, O Campeador e o Vento, de 1966, a Canga, 1971, Ordenações, do mesmo ano, ao Poço do Calabouço, de 1974, Árvore do mundo, 1977, O Chapéu  das Estações, de 1978, Os Viventes, 1979, Um  País  O Coração, 1980, Memórias do Porão, 1985,  A Idade da  Aurora e Amar, a  mais alta constelação, ambos em 1991 e outros mais.

A poesia de Nejar nunca é uma criação esporádica ou bissexta: ele não
é jamais, nem um "poeta de ocasião", nem um poeta "à altura de seu tempo"
no sentido utilitário de se usar a poesia para fins mesquinhos e perecíveis.

Como o passar do tempo  comprova cabalmente, a inspiração poética de
Carlos Nejar flui, constante, como um rio que atravessasse idades carregadas de heroísmo, luta, feridas, mas nunca desânimo. Tal o célere e célebre rio de
que nos fala o filósofo Heráclito, nunca nele nos banhamos novamente: cada vez
suas águas hão de correr ,volumosas, rumo a outras paragens, a servir de espelho
para outros homens. Assim, é a poesia desse gaúcho que estendeu a tenda
da pátria por sobre todos os países e agrupamentos humanos existentes na
Terra. Compreendeu desde cedo que a situação do homem, seu condicionamento
social e temporal, foram sempre os mesmos: diante da Morte, diante da  não-vida,
que é a miséria imposta  pelas castas dominantes, usurpadoras da própria
floração dessas vidas. Não importa, parece afirmar o poeta universal do Sul .

Os sonhos do homem não podem ser abolidos. Os ideais da humanidade avançam, lentamente, mesmo que não sobrevenham os milagres nem seres extra-terrestres. Pois, desde cedo a centelha que iluminou todas as fases desse poeta
inspiradíssimo pelos deuses, foi a Fé, justificada na palavra como transformado
ra da condição humana.

Há pouco, durante uma entrevista concedida na Espanha, o escritor insigne do Peru, Mário Vargas -Llosa, confessou que chegara, após déca das de fecunda dedicação, ao escrever romances sumamente importantes e comoventes que "a literatura não faz acontecer". De fato, os livros não são granadas, nem mísseis, nem metralhadoras. Sob esse ângulo, realmente , eles não são uma ação, um gesto que muda as coisas.

Porém, como a poesia contida neste volume, comprova, de maneira esplêndida,
os versos penetram sem pressa na sensibilidade e na apreensão do mundo e da vida,
e quase imperceptivelmente, vão tornan do a existência um salto para a metafísica do "estado poético". Aí, sim, a poesia age, soberana e inconteste. E nós, leitores, é que, gratos, nos engrandecemos seguindo o canto do  poeta, a mais válida prova de uma transcendência mediada pela palavra.

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Léo Gilson Ribeiro é crítico literário e jornalista. Formado em Literatura Comparada na Universidade de Hamburgo, Alemanha, em 1959, lecionou  Literatura Brasileira na  Universidade  de Heidelberg. Atividade militante de crítica literária no Jornal da Tarde, de São Paulo e na Revista Veja.
    Publicou Cronistas do Absurdo (ensaios), José Álvaro Editor, Rio de Janeiro,
em 1964 e O Continente Submerso, editora Best Seller, São Paulo, 1988. Seu trabalho cultural em jornais e revistas lhe valeu o II Prêmio Nórdica de Jornalismo Literário.