§.

Construção da noite

Carlos Nejar


 No casulo há um homem
 mas o fundo é o outro lado.
 No casulo de seu tempo há um homem,
 mas o fundo é o outro lado.
 É o casulo onde o homem foi achado,
 mas o fundo é o outro lado.
 É o  terreno onde o homem foi lavrado,
 mas o fundo é o outro lado.
 É a treva onde o homem foi fechado,
 mas o fundo é o outro lado.
 É o silêncio de um homem  soterrado,
 mas o fundo é o outro lado.
 Mas o fundo é o outro lado.

 É a infância que nasce sobre o morto,
 é a infância que cresce sobre o morto,
 é o sol que madruga no seu rosto,
 é um homem que salta do sol posto
 e convoca outros homens para o sonho
 e mistura-se à terra
 e mistura-se ao sonho.

 E o canto recomeça além do sonho,
 além da escuridão, além do lago.
 Mas o fundo é o outro lado,
 mas o fundo principia sem passado,
 sem os montes, sem os barcos, sem o lago.

 Tua vida verdadeira é o outro lado.
 Tua terra verdadeira é o outro lado.
 Tua herança verdadeira é o outro lado.

 Tudo cessa.
 Tudo cessa,
 tudo cessa.
 Mas o mundo
 é o outro lado
 que começa.