§.

Contra  a esperança

Carlos Nejar


 É  preciso esperar contra a esperança.
 Esperar, amar, criar
 contra a esperança
 e depois desesperar a esperança
 mas esperar, enquanto
 um fio de água, um remo,
 peixes existem e sobrevivem
 no meio dos litígios;
 enquanto bater
 a máquina de coser
 e o dia dali sair
 como um colete novo.

 É preciso esperar
 por um pouco de vento,
 um toque de manhãs.
 E não se espera muito.
 Só um curto-circuito
 na lembrança. Os cabelos,
 ninhos de andorinhas
 e chuvas.A esperança,
 cachorro a correr
 sobre o campo
 e uma pequena lebre
 que a noite
 em vão esconde.

 O universo é um telhado
 com sua calha, tão baixo
 e as estrelas, enxame
 de abelhas na ponta.

 É preciso esperar contra a esperança
 e ser a mão pousada
 no leme de sua lança.

 E o peito da esperança
 é não chegar;
 seu rosto é  sempre mais.
 É preciso  desesperar
 a esperança
 como um balde no mar.

 Um balde a mais
 na esperança
 e sobre nós.