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 Infindável solo ou a ordem dos planetas

Carlos Nejar

 
 Embora preso ao pampa,
 eu sempre fui sem pátria
 ou acostumei-me à ingrata

 volúpia de ir seguindo.
 Não parava na falta.
 Parava, onde soía.

 Parava de ir partindo.
 Tinha casa na alva
 sem rede, pelo instinto

 de pescador ao eito.
 Pôr o espinhel de alma
 ou então fisgar o peixe

 sem portulano, onde
 o dia em nós confunde
 as pás de espuma e o rude

 repasto das correntes
 e a luz é o peixe arfante
 e o peixe morde a sede.

 E eu morderei o instante
 igual a um pão. Me rendo
 a cada rio ou monte,

 às árvores, ao hálito
 do diamante clárido
 que no sereno arpeja.

 Mas não me rendo à luta,
 ou à dissipada urna,
 que a noite faz da lua.

 Transmudo-me, oscilante.
 Não sou eu mesmo nunca,
 nem mesmo eu era antes.

 Sem pátria e circunspecto,
 fui tantos, nenhum gesto
 pegava-me no engenho

 de construir-me, sendo,
 com calças de palavras
 e paletós, crepúsculos

 que urdem os minúsculos
 estatutos da sombra.
 Mas construir, nos funda.

 E o que me contentava
 não vinha da estranheza
 ou páramos, das cores

 ou suas flores mudas.
 Aperfeiçoava as dúvidas
 em (g)alas de lembrança.

 Aperfeiçoava a vida
 nas dádivas e usanças
 de cada coisa minha

 ou tua ou nos penedos
 ou álgida espessura
 de ir ardendo. Herdo

 a natural brandura
 de quem, não tendo pátria,
 é pátria o que acompanha:

 o penso fecho, a tarde
 e os meus sapatos tardos
 e os altos olhos secos

 e  o que caduca e vence
 a glória ou em glória geme.
 A ordem dos planetas

 é pátria. Onde não chega
 a viandante instância
 deste vagar plangente.

 Quem apartar a infância,
 pode ser dela, ao menos,
 absorto na fragância

 de seus campos amenos ?
 E é tão restrito o canto
 quando da pátria pende

 e reticente o verso.
 Embora ao pampa preso,
 em que pátria sustenho

 os teus olhos ulmeiros
 e os tordos pensamentos ?
 Sou pouco, parco e atento.

 No muito amar, aprendo
 a língua dessa pátria.
 Aos pássaros escrevo

 no ar: "Ó pátria árdua".
 Ou "excelsa liberdade"
 - segredo para as vastas

 afluências da noite.
 Ou é fidente flauta,
 gracioso tom que sigo.

 Sonata de colheitas
 e ondulantes juízos.
 O meu país é onde.

 E é quando não entendo,
 ou quando em mim consentem
 descansar os viventes,

 os pasmados rebanhos.
 Pode ter pátria, aquele
 que não a põe no tempo ?

 Ou é pátria, o banimento,
 o reluzente pálio
 de que a verdura aclara

 em soberana estrela ?
 A ululante máquina,
 que se emperrou, girante

 onde jamais se achara,
 rangente e mais amara ?
 O enferrujado eixo

 de túmida memória ?
 Acostumado à incauta
 volúpia de ir partindo,

 onde é país me calo.
 Não sou mais forasteiro.
 Além de mim, te afago.

 Acalmo, palpo, cheiro.
 É forasteiro o tempo,
 é forasteira a morte.

 O meu país é quando
 só alcancei, sonhando.
 E por te amar, contento,

 ali, se resplandece
 Vésper e o largo oceano.
 E é tanto o que te amo,

 que já perdi a fonte
 do ar de ir deitando
 as águas e os sossegos.

 Infindável o solo.
 É quando quando quando.
 Por onde nunca morro.