§.
A chuva do Velho Testamento

Carlos Nejar

"Estou dentro da luz que avança"
Nazim Hikmet

 Encontrei a alma
 na infância.
 Fomos juntos crianças.
 E podia inventá-la
 ou ser alegre ária
 na desprumada flauta
 do sol.

 Encontrei a alma
 na infância.
 A inocência, arca
 da aliança enferrujada
 pela chuva do Velho Testamento.
 Madurou, envelheceu?
 Encontrei-a solúvel,
 apressada.
 Nem conversamos.
 Foi alguém
 que muito amei.
 E só me levantei,
 quando a vi levantada.

                2.

 E me enredei num fio
 que não tem fim.

 É o começo de Deus
 aquele rio.

 Não se sabia onde a cabeceira
 ou a foz do texto.
 Íamos apenas.

               3.

 Deus é vontade
 de estar tão perto
 que só capina
 no amor ou dentro
 do pensamento.

 O seu semblante
 é ser o campo.

 Se o distinguimos,
 estamos diante
 de nosso rosto.

               4.

 Deus não é a palavra Deus
 e andorinha,
 a palavra  andorinha.

 Há um poço
 que não entra
 na palavra  poço.

 E Deus é tudo isso.

               5.

 Deus era a selva
 onde cresci.
 A teologia me espiava
 pela fresta de uma palavra.

 Criei tamanho
 e fui medido em plantas,
 pedras.

 Selva selvagem, Deus
 e eu me  abeirava
 de sua densidade.
 E às vezes Deus pousava
 numa clareira
 sob o dedal do dia.

 Caçava borboletas
 em Deus.

 De fauna e flora
 me cobria:
 os panos da linguagem.
 De fauna e flora, Deus
 Margem nenhuma
 a separar  a identidade.

 E a tudo o amor ouvia.
 Em toda a parte.