§.
Bufão Dom Sebastião de Morra (Velasquez)

Carlos Nejar

 
 Duas vezes anão entre
 o existido e o ser,
 na estatura e nos tocos
 de vela das mãos
 sob o casaco, embutidos.
 Como se subitamente
 pudessem descer num desvão
 ou fenecer. E  a  memória
 nada mais recordasse.

 Viver era carregar frações
 de esquecimento, os capítulos
 de lucidez demasiada, a dúbia
 e monstruosa natureza.

 Tantas vezes bufão, quanto
 seu rosto é abismo, quanto
 dançava perante o monarca
 silente, quanto dançava
 a agonia de um animal
 esfaqueado na tarde
 e vazando com as cargas
 ao dia seguinte.

 Bufão sempre do dia seguinte,
 da seguinte esperança,
 da hora, do alento
 que teimava em vir.
 E o frenético riso
 de palavras não pertencentes
 à ordem, reino, alfabética
 mansão  dos dicionários.

 E até as solas dos sapatos
 expostas, a sola das humanas
 devastações, a sola do desastre
 anunciado entre os vivos,
 as solas de outro pai esvoaçante,
 onde cabem  seus pés bufões
 da eternidade.