§.

Poema da devastação

Carlos Nejar


 Há uma devastação
 nas coisas e nos seres,
 como se algum vulcão
 abrisse as sobrancelhas
 e ali, sobre esse chão,
 pousassem as inteiras
 angústias, solidões,
 passados desesperos
 e toda a condição
 de homem sem soleira,
 ventura tão curta,
 punição extrema.

 Há uma devastação
 nas águas e nos seres;
 os peixes, com seus viços,
 revolvem-se no umbigo
 deste vulcão de escamas.

 Há uma devastação
 nas plantas e nos seres;
 o homem recurvado
 com a pálpebra nos joelhos.
 As lavas soprarão,
 enquanto nós vivermos.