§. Napoleão Bonaparte
Carlos Nejar
Fui Napoleão Bonaparte: ator
perdido no guerreiro,
estrategista efêmero
de mortos que subiam e desciam
na convulsão da terra.Fui ator, às vezes general
na roda de batalhas,
o acampamento rude, era
um soldado entre outros.
Um soldado de ignotos
ritos, de uma ordem fatal
que vinha do que os homens
chamam gênio, ou desespero
de ter a forma humana,
embora um fogo o aniquile
e seja o pensamento frio
de ir engendrando deuses
e batalhas.Pode um ator e personagem,
trocar em surdina seus papéis
e continuar a cena? Imperador
dos reis e prisioneiro dos ingleses
nesta Ilha de Santa Helena?Uma agonia pertinaz me açula,
uma agonia, esta matilha.
Os mortos querem matar os vivos.
Mas quanto custa morrer.Um furor de faca sobre
o estômago, um repuxo
de lâmina cortando,
um repuxo de jorros.
Como se gotas de veneno
se grudassem no sangue.
E a febre borbulhante
da agonia, as ervas negras.A dor era maior que o reino
que tivera ou a vigília
dos tambores, ou Waterloo.
A dor de uma cama a outra.
O quarto, mundo submergindo.
De uma cama a outra.E os lençóis não murchavam
os quadrantes desta morte
que me arqueava.Quando a morte viu,
eu nela me deitava.
Principiei a dormir.
Com a minha cara.
E a máscara.