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O Campeador com as rédeas do tempo

Carlos Nejar

 
Quando  os ventos chegarem
 na terra forte,
 quando as nuvens rolarem
 sobre as nuvens
 e o vento se deslocar
 sobre o vento,
 o sonho tombará o sonho,
 reverdecendo.

 Quando o vento se deslocar
 sobre o vento
 na terra forte,
 os homens serão setas no tempo.
 O tempo destila o tempo.

                  II.

 Os ventos serão asas,
 os homens serão ventos,
 as noites serão as noites
 dentro das  noites,
 as casas
 dentro dos homens,
 o tempo.

 A morte sempre vivida
 é vida multiplicada.

                  III.

 Nada,
 nem a lentidão do drama,
 o curto espaço
 em que habitava,
 o fio da espada,
 nem os trópicos,
 nada embaciava
 aquela onda :
 o Cavaleiro e sua jornada.

                  IV.

 As  pedras se transformam
 em astros longe ventando,
 os pássaros retomam
 os horizontes de vento.

 As  noites passam
 dentro das noites
 e os ventos dentro
 dos ventos.

 A morte sempre vivida
 é vida multiplicada.

                V.

 O   vento é o vento ,
 a vida é noite
 cheia de ventos,
 porém ao vento
 como encontrá-lo ?
 Na sombra branca ,
 na sombra branca,
 na sombra branca de seu cavalo.

                  VI.

 O vento é o vento;
 as crinas não rompem
 o silêncio
 e ao seu galope
 retumba a água,
 prossegue sempre,
 até que o tempo
 desmonte a morte,
 no seu galope,
 desmonte o tempo.
 Prossegue sempre.

                      VII.

 Quando os ventos forem caminhos
 e os ventos-ventos forem sementes,
 quando os cavalos forem moinhos
 e a noite negra for transparente.

 Quando os ventos forem caminhos,
 quando os barcos forem poente,
 quando os cavalos forem moinhos,
 moendo a noite tranquilamente.

 Quando os ventos forem caminhos,
 a vida cheia de ventos
 na vida feita semente,
 moendo o jugo com seus dentes.

 Quando os ventos forem caminhos,
 seremos ventos e ninhos,
 sombras esguias, ventos-moinhos,
 moendo a noite nos seus caminhos.