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Os mortos - eu os vi - na primavera

Carlos Nejar

 
 Os mortos - eu os vi - na primavera.
 Ressurgiam dos corpos. Eu os vi.
 A primavera começava neles
 e terminava onde a alma estava.

 Os mortos- eu os vi-  iam descalços
 na primavera, iam libertados.
 Nada tolhia, nada separava
 os pés das coisas vivas.

 Os mortos - eu os vi- não tinham rosto
 nem nome.Eram muitos.
 Num só se acrescentavam.
 Eram muitos e vivos.Perguntei-lhes
 por onde a primavera se alongava.

 Os mortos - eu os vi - na primavera.
 O sol dobrava neles os seus frutos.
 O sol entrava neles. Eram larvas.