§. Paiol da Aurora
Carlos Nejar
Colocaste este nome
na casa. E era
mais nua que a onda
na água.Como podem
as coisas existir,
sem afago?
Paiol é como anotaste a luz
que se despe de amor.E arderás no coração
desta enseada em concha.Até o Pontal
do derradeiro orvalho.II.
Os morangos tinham
idades em ti. Mas a alma
não.O céu como uma roda
lacerava o eixo azul
e não dormia
não dormia.Nem tu, que estavas nela
girando e envelhecendo.Com seu ronco de boto,
pesava-te ao pescoço o sol.Não, não te escapas:
pertences à mesma raça.III.
As castanheiras se tornam imensas,
ao tocá-las. Imensas
e esqueces as diferenças
de infância e cor.
Até que o pintassilgo
levante em trompa
o bico.E caias
sob o peso
de conselhos, juízos.Caias sob o canto
que leva flor ao cimo.
E a água do mar gritava
e chamavas sem dolo
o nome das coisas.Todas ficavam em flor.
IV.
Não és senhor de árvore,
pedra ou dos réis
de água, junto à praia
desta mônica de espuma,
com os nós pelo ar, parados.E as cordas das fundas estrelas.
Não és dono nem de tuas
dúvidas. Nem o oceano
de olhar-te, conhece
tuas feições.E os amantes se querem mais
pelas estranhezas, que as
descobertas.Nem são donos
do que os invade.Ó Pontal de éguas claridades!
V.
Em novelo, como os cães
e as crianças adormeces.
Basta o assobio e o mar
avança.Basta deixar
a vida sob o paiol,
sozinha e então,
possuí-la: mais grata
e rara. Apetecida.VI.
Viver é estar acordado
e acordar. E comer
o pão, beber a branca
alegria, deitar
com as lavas.E no tempo ajustado
pela alma, erguer
as asas.VII.
Os olhos voarão,
os braços e os pés
voarão.E pela sacada
de mel, não há
alma que não voe.E o céu coado
entorna fluvo,
uivo: em decibéis,
como um tonel,
o anel intransponível
de gaivotas.VIII.
A roda de Deus
nos toca.
E vives
com um ramo
de amanhecer
na boca.