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Soneto aos Sapatos Quietos

Carlos Nejar


 Os pés dos sapatos juntos.
 Hei-de calçá-los, soltos
 e imensos, e talvez rotos,
 como dois velhos marujos.

 Nunca terão o desgosto
 que tive. Jamais o sujo
 desconsolo: estando postos,
 como eu, em chãos defuntos.

 Em vãos de flor, sem o riacho
 de um pé a outro, entre guizos.
 Não há demência ou fome.

 Sapatos nos pés não comem.
 Só dormem. Porém, descalço
 pela alma, o paraíso.